1. Energia solar
Quase todas as fontes de energia – hidráulica, biomassa,
eólica, combustíveis fósseis e energia dos oceanos – são formas
indiretas de energia solar, o que justifica a associação "mãe
das energias". Além disso, a radiação solar pode ser utilizada
diretamente como fonte de energia térmica, para aquecimento de
fluidos e ambientes e para geração de potência mecânica ou
elétrica. Pode ainda ser convertida diretamente em energia
elétrica, por meio de efeitos sobre determinados materiais,
entre os quais se destacam o termoelétrico e o fotovoltaico.
O aproveitamento da iluminação natural e do calor para
aquecimento de ambientes, denominado aquecimento solar passivo,
decorre da penetração ou absorção da radiação solar nas
edificações, reduzindo-se, com isso, as necessidades de
iluminação e aquecimento. Assim, um melhor aproveitamento da
radiação solar pode ser feito com o auxílio de técnicas mais
sofisticadas de arquitetura e construção.
O aproveitamento térmico para aquecimento de fluidos é feito
com o uso de coletores ou concentradores solares. Os coletores
solares são mais usados em aplicações residenciais e comerciais
(hotéis, restaurantes, clubes, hospitais etc.) para o
aquecimento de água (higiene pessoal e lavagem de utensílios e
ambientes). Os concentradores solares destinam-se a aplicações
que requerem temperaturas mais elevadas, como a secagem de grãos
e a produção de vapor. Neste último caso, pode-se gerar energia
mecânica com o auxílio de uma turbina a vapor, e,
posteriormente, eletricidade, por meio de um gerador.
A conversão direta da energia solar em energia elétrica
ocorre pelos efeitos da radiação (calor e luz) sobre
determinados materiais, particularmente os semicondutores. Entre
esses, destacam-se os efeitos termoelétrico e fotovoltaico. O
primeiro caracteriza-se pelo surgimento de uma diferença de
potencial, provocada pela junção de dois metais, em condições
específicas. No segundo, os fótons contidos na luz solar são
convertidos em energia elétrica, por meio do uso de células
solares.
Entre os vários processos de aproveitamento da energia solar,
os mais usados atualmente são o aquecimento de água e a geração
fotovoltaica de energia elétrica. No Brasil, o primeiro é mais
encontrado nas regiões Sul e Sudeste, devido a características
climáticas, e o segundo, nas regiões Norte e Nordeste, em
comunidades isoladas da rede de energia elétrica.
2. Radiação solar
Além das condições atmosféricas (nebulosidade, umidade
relativa do ar etc.), a disponibilidade de radiação solar,
também denominada energia total incidente sobre a superfície
terrestre, depende da latitude local e da posição no tempo (hora
do dia e dia do ano). Isso se deve à inclinação do eixo
imaginário em torno do qual a Terra gira diariamente (movimento
de rotação) e à trajetória elíptica que a Terra descreve ao
redor do Sol (translação ou revolução).
Desse modo, a duração solar do dia – período de visibilidade
do Sol ou de claridade – varia, em algumas regiões e períodos do
ano, de zero hora (Sol abaixo da linha do horizonte durante o
dia todo) a 24 horas (Sol sempre acima da linha do horizonte).
As variações são mais intensas nas regiões polares e nos
períodos de solstício. O inverso ocorre próximo à linha do
Equador e durante os equinócios.
A maior parte do território brasileiro está localizada
relativamente próxima da linha do Equador, de forma que não se
observam grandes variações na duração solar do dia. Contudo, a
maioria da população brasileira e das atividades socioeconômicas
do País se concentra em regiões mais distantes do Equador. Em
Porto Alegre, capital brasileira mais meridional (cerca de 30º
S), a duração solar do dia varia de 10 horas e 13 minutos a 13
horas e 47 minutos, aproximadamente, entre 21 de junho e 22 de
dezembro, respectivamente. Desse modo, para maximizar o
aproveitamento da radiação solar, pode-se ajustar a posição do
coletor ou painel solar de acordo com a latitude local e o
período do ano em que se requer mais energia. No Hemisfério Sul,
por exemplo, um sistema de captação solar fixo deve ser
orientado para o Norte, com ângulo de inclinação similar ao da
latitude local.
3. Transmissão de calor
O calor pode ser percebido pela diferença de temperatura e
pode ser transmitido de três formas: condução, convecção e
irradiação.
A transmissão de calor por condução se dá quando as
partículas de uma matéria, principalmente, sólida se colidem
devido a vibrações que sofrem ao serem aquecidas, como por
exemplo: acender uma vela e ficar segurando um metal qualquer
sobre a chama; usar espetos de ferro ao assar carne em um
churrasco; deixar a colher dentro de uma panela de arroz que
ainda está no fogo ou dentro de uma xícara de café quente.
O calor é transmitido por convecção em matérias líquidas ou
gasosas, pois nesses meios as moléculas têm maior liberdade de
movimento. Consequentemente, quando há aquecimento dessas
matérias as moléculas se movimentam com mais rapidez e tendem a
se deslocar, ou seja, as moléculas frias vão para as regiões
mais quentes e as moléculas quentes para as regiões mais frias.
Desta forma, pode-se entender alguns fenômenos vistos
diariamente em vários lugares, como por exemplo: a água fervendo
dentro de uma chaleira; o resfriamento no interior de uma
geladeira; o aquecimento interno de residências; etc.
Na irradiação, a transmissão de calor acontece quando a agitação
térmica das moléculas de uma fonte é transferida de uma região
para outra, dentro de um determinado espaço, sem que haja
qualquer ligação material direta entre dois meios, como por
exemplo: o calor que se pode sentir aqui na Terra proveniente do
Sol; o aquecimento no interior de estufas para plantas; a
temperatura alta no interior de um carro quando exposto ao sol
durante algum tempo, etc.
4. Aproveitamento da energia solar
O aproveitamento da energia solar, ou seja a utilização do calor
proveniente do sol, pode se dar de diversas maneiras, tais como:
a) gerar eletricidade, principalmente, nas regiões onde não há
sistema de transmissão de energia elétrica convencional, ou
seja, regiões não interligadas ao Sistema Integrado Nacional (SIN);
b) aquecer a água dos chuveiros elétricos;
c) uso de estufas para maior crescimento de vegetais que
precisam manter a temperatura interna mais elevada que a
temperatura externa;
d) secagem de grãos;
e) bombeamento de água usando um painel fotovoltaico acoplado a
uma bomba hidráulica.
5. Tecnologias aplicáveis
Coletor solar: A radiação solar pode ser absorvida por coletores
solares, principalmente para aquecimento de água, a temperaturas
relativamente baixas (inferiores a 100ºC). O uso dessa
tecnologia ocorre predominantemente no setor residencial, mas há
demanda significativa e aplicações em outros setores, como
edifícios públicos e comerciais, hospitais, restaurantes, hotéis
e similares. Esse sistema de aproveitamento térmico da energia
solar, também denominado aquecimento solar ativo, envolve o uso
de um coletor solar discreto. O coletor é instalado normalmente
no teto das residências e edificações. Devido à baixa densidade
da energia solar que incide sobre a superfície terrestre, o
atendimento de uma única residência pode requerer a instalação
de vários metros quadrados de coletores. Para o suprimento de
água quente de uma residência típica (três ou quatro moradores),
são necessários cerca de 4 m2 de coletor.
Concentrador solar: O aproveitamento da energia solar aplicado a
sistemas que requerem temperaturas mais elevadas ocorre por meio
de concentradores solares, cuja finalidade é captar a energia
solar incidente numa área relativamente grande e concentrá-la
numa área muito menor, de modo que a temperatura desta última
aumente substancialmente. A superfície refletora (espelho) dos
concentradores tem forma parabólica ou esférica, de modo que os
raios solares que nela incidem sejam refletidos para uma
superfície bem menor, denominada foco, onde se localiza o
material a ser aquecido. Os sistemas parabólicos de alta
concentração atingem temperaturas bastante elevadas e índices de
eficiência que variam de 14% a 22% de aproveitamento da energia
solar incidente, podendo ser utilizada para a geração de vapor
e, conseqüentemente, de energia elétrica. Contudo, a necessidade
de focalizar a luz solar sobre uma pequena área exige algum
dispositivo de orientação, acarretando custos adicionais ao
sistema, os quais tendem a ser minimizados em sistemas de grande
porte. Entre meados e final dos anos 1980, foram instalados nove
sistemas parabólicos no sul da Califórnia, EUA, com tamanhos que
variam entre 14 MW e 80 MW, totalizando 354 MW de potência
instalada. Trata-se de sistemas híbridos, que operam com auxílio
de gás natural, de modo a atender a demanda em horários de baixa
incidência solar. Os custos da eletricidade gerada têm variado
entre US$ 90 e US$ 280 por MWh. Recentes melhoramentos têm sido
feitos, visando a reduzir custos e aumentar a eficiência de
conversão. Em lugar de pesados espelhos de vidro, têm-se
empregado folhas circulares de filme plástico aluminizado (NREL,
2000).
Conversores fotovoltaicos: a radiação solar pode ser diretamente
convertida em energia elétrica, por meio de efeitos da radiação
(calor e luz) sobre determinados materiais, particularmente os
semicondutores. Entre esses, destacam-se os efeitos
termoelétrico e fotovoltaico. O primeiro se caracteriza pelo
surgimento de uma diferença de potencial, provocada pela junção
de dois metais, quando tal junção está a uma temperatura mais
elevada do que as outras extremidades dos fios. Embora muito
empregado na construção de medidores de temperatura, seu uso
comercial para a geração de eletricidade tem sido
impossibilitado pelos baixos rendimentos obtidos e pelos custos
elevados dos materiais.
O efeito fotovoltaico decorre da excitação dos elétrons de
alguns materiais na presença da luz solar (ou outras formas
apropriadas de energia). Entre os materiais mais adequados para
a conversão da radiação solar em energia elétrica, os quais são
usualmente chamados de células solares ou fotovoltaicas,
destaca-se o silício. A eficiência de conversão das células
solares é medida pela proporção da radiação solar incidente
sobre a superfície da célula que é convertida em energia
elétrica. Atualmente, as melhores células apresentam um índice
de eficiência de 25%
(GREEN et al., 2000).
Para a geração de eletricidade em escala comercial, o principal
obstáculo tem sido o custo das células solares. Segundo B(2000),
atualmente os custos de capital variam entre 5 e 15 vezes os
custos unitários de uma usina a gás natural que opera com ciclo
combinado. Contudo, nos últimos anos tem-se observado redução
nos custos de capital. Os valores estão situados na faixa de US$
200 a US$ 300 por MWh e entre US$ 3 e US$ 7 mil por kW
instalado.
6. Aquecimento de água
A tecnologia do aquecedor solar já vem sendo usada no Brasil
desde a década de 60, época em que surgiram as primeiras
pesquisas. Em 1973, empresas passaram a utilizá-la
comercialmente (ABRAVA, 2001).
Segundo informações da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar
Condicionado, Ventilação e Aquecimento (ABRAVA, 2001), existiam
até recentemente cerca de 500.000 coletores solares residenciais
instalados no Brasil. Somente com aquecimento doméstico de água
para banho, são gastos anualmente bilhões de kWh de energia
elétrica, os quais poderiam ser supridos com energia solar, com
enormes vantagens socioeconômicas e ambientais. Mais grave ainda
é o fato de que quase toda essa energia costuma ser consumida em
horas específicas do dia, o que gera uma sobrecarga no sistema
elétrico. Além disso, há uma enorme demanda em prédios públicos
e comerciais, que pode ser devidamente atendida por sistemas de
aquecimento solar central.
Embora pouco significativos diante do grande potencial
existente, já há vários projetos de aproveitamento da radiação
solar para aquecimento de água no País. Essa tecnologia tem sido
aplicada principalmente em residências, hotéis, motéis,
hospitais, vestiários, restaurantes industriais e no aquecimento
de piscinas. Em Belo Horizonte, por exemplo, já são mais de 950
edifícios que contam com este benefício e, em Porto Seguro, 130
hotéis e pousadas (ABRAVA, 2001). A Figura 3.8 ilustra um
exemplo comercial de aproveitamento térmico da energia solar na
cidade de Belo Horizonte – MG, o qual se tornou referência em
energia solar térmica. O sistema possui área total de 804 m2 de
coletores solares e capacidade de armazenamento de água de
60.000 litros. Entre outros exemplos encontrados em Belo
Horizonte, destaca-se o do Centro de Operações da ECT, que
possui área total de 100 m2 de coletores e capacidade de
armazenamento de água de 10.000 litros (CRESESB, 2000).
Um dos principais entraves à difusão da tecnologia de
aquecimento solar de água é o custo de aquisição dos
equipamentos, particularmente para residências de baixa renda.
Mas a tendência ao longo dos anos é a redução dos custos, em
função da escala de produção, dos avanços tecnológicos, do
aumento da concorrência e dos incentivos governamentais. Fatores
que têm contribuído para o crescimento do mercado são: a
divulgação dos benefícios do uso da energia solar; a isenção de
impostos que o setor obteve; financiamentos, como o da Caixa
Econômica Federal, aos interessados em implantar o sistema; e a
necessidade de reduzir os gastos com energia elétrica durante o
racionamento em 2001 (ABRAVA, 2001). Também são crescentes as
aplicações da energia solar para aquecimento de água em
conjuntos habitacionais e casas populares, como nos projetos
Ilha do Mel, Projeto Cingapura, Projeto Sapucaias em Contagem,
Conjuntos Habitacionais SIR e Maria Eugênia (COHAB) em
Governador Valadares (ABRAVA, 2001). Outro elemento propulsor
dessa tecnologia é a Lei n° 10.295, de 17 de outubro de 2001,
que dispõe sobre a Política Nacional de Conservação e Uso
Racional de Energia e a promoção da eficiência nas edificações
construídas no País. O crescimento médio no setor, que já conta
com aproximadamente 140 fabricantes e possui uma taxa histórica
de crescimento anual de aproximadamente 35%, foi acima de 50% em
2001. Em 2002, foram produzidos no país 310.000 m2 de coletores
solares (ABRAVA, 2001).
7. Aproveitamento da energia solar no Brasil
Atualmente há vários projetos, em curso ou em operação, para o
aproveitamento da energia solar no Brasil, particularmente por
meio de sistemas fotovoltaicos de geração de eletricidade,
visando ao atendimento de comunidades isoladas da rede de
energia elétrica e ao desenvolvimento regional. Além do apoio
técnico, científico e financeiro recebido de diversos órgãos e
instituições brasileiras (MME, Eletrobrás/CEPEL e universidades,
entre outros), esses projetos têm tido o suporte de organismos
internacionais, particularmente
da Agência Alemã de Cooperação Técnica – GTZ e do Laboratório de
Energia Renovável dos Estados Unidos (National Renewable Energy
Laboratory) – NREL/DOE. Também a área de aproveitamento da
energia solar para aquecimento de água tem adquirido importância
nas regiões Sul e Sudeste do País, onde uma parcela expressiva
do consumo de energia elétrica é destinada a esse fim,
principalmente no setor residencial.
8. Referências bibliográficas
Energia Alternativa – Sistemas Fotovoltaicos, CEMIG, Texto
Superintendência de Planejamento e Desenvolvimento Energético –
PE
PALZ, Wolfong. Energia Solar e Fontes Alternativas, Editora
Hemus, São Paulo, 1981.
RUTHER, R. Panorama atual da utilização da energia solar
fotovoltaica e o trabalho do Labsolar nesta área, Florianópolis,
2000.